sexta-feira, 15 de março de 2013

PRIMEIRA CONSULTA AO GINECOLOGISTA.

      ESCOLA FV.FABIO VICENTINI TREINAMENTO PARA HABILITADOS.

 

 

Primeira consulta ao ginecologista.




Nem faz tanto tempo assim que as mocinhas menstruavam mais tarde e iam pela primeira vez ao ginecologista, já casadas, depois que engravidavam. Antes disso, só consultavam um médico, na maior parte das vezes um clínico geral, velho amigo da família, se tivessem algum problema sério de saúde.
Atualmente, as meninas menstruam mais cedo e o início da vida sexual é mais precoce. Teoricamente, antes que isso aconteça, é o momento ideal para a primeira consulta ao ginecologista. O problema é que muitas mães têm medo de que levar a filha adolescente ao ginecologista possa representar um incentivo ao início de sua vida sexual. Puro engano! Quando a garota decide que chegou seu momento, com ou sem a aprovação materna, iniciará a vida sexual e é melhor que esteja informada e protegida contra doenças sexualmente transmissíveis (DST) e gravidez.
APARELHO GENITAL FEMININO

Drauzio – Você poderia dar uma noção a respeito dos órgãos genitais externos da mulher?
Mauro Sancovski – Acho importante que todas as mulheres,
especialmente as meninas que vão começar o ciclo menstrual, conheçam seu próprio corpo, tenham noção de sua anatomia.
Na imagem 1, estão representados os órgãos genitais externos.A extremidade inferior da vagina, ou introito vaginal, está localizada muito perto do meato uretral, orifício por onde sai a urina. A proximidade entre vagina e uretra explica a frequência da infecção urinária nas mulheres. Muitas vezes, entretanto, a dor não provém da infecção, mas de um corrimento vaginal que provoca irritação na uretra. Os grandes lábios constituem a parte mais externa e carnosa. Por dentro deles estão os pequenos lábios, delicadas pregas cutâneas e o clitóris e o monte de Vênus, uma região coberta por pelos.
Na imagem 2, aparece o hímen, uma membrana perfurada existente na entrada da vagina e que é normalmente rompida na primeira relação sexual. Existem vários tipos de hímen. Alguns são mais carnosos como esse. Por ser mais grossa a espessura da pele, no momento da ruptura pode haver um ligeiro sangramento e certo incômodo.
A imagem 3 deixa ver a entrada da vagina e outro tipo de hímen, dentro do qual existe uma pequena membrana. A imagem 4 registra o hímen fenestrado, que se caracteriza pela presença de vários buraquinhos por onde escapa o fluxo menstrual.
Quando começam a menstruar, em geral, as meninas querem saber se podem usar absorventes internos. Examinando o tipo de hímen, o ginecologista poderá orientá-las. Se o hímen for mais aberto, mais complacente, a colocação desses absorventes não traz nenhum inconveniente, o que não acontece com os hímens fenestrados, por exemplo. No exame ginecológico, usando um espelho, o médico poderá mostrar-lhes o tipo de hímen que possuem e quais os cuidados que devem ser observados.
Na imagem 4, pode-se observar um caso em que já ocorreu a ruptura himenial e a entrada da vagina está mais livre.
COMBATE À INIBIÇÃO
Drauzio – As meninas não costumam olhar o aparelho genital, não é verdade?
Mauro Sancovski – Não só as meninas, mas muitas mulheres. É lógico que há mulheres que com um espelhinho descobrem coisas que, às vezes, passariam despercebidas até no exame ginecológico.
Tudo é uma questão de saber lidar com o próprio corpo e depende de como a menina foi criada. Se lhe ensinaram que mexer nos genitais é algo errado e pecaminoso, dificilmente terá naturalidade para tocá-los. Agora, se desde criança lhe disseram o contrário, ela usufruirá algumas vantagens. Primeiro, porque irá conhecer melhor seu organismo. Segundo, porque perderá o medo de colocar, por exemplo, um absorvente íntimo, um diafragma ou anéis hormonais, métodos de contracepção que implicam a necessidade de manipulação dos órgãos genitais. Além disso, sob o ponto de vista da sexualidade propriamente dita, é fundamental que ela perca esses medos todos.
IMPORTÂNCIA DA ORIENTAÇÃO MATERNA
Drauzio – Existe uma regra que estabeleça quando deve ser feita a primeira consulta ao ginecologista?
Mauro Sancovski – Existe até um trocadilho a esse respeito: não existe regra, a regra é a menstruação. Na realidade, é um verdadeiro quebra-cabeça descobrir a época certa da primeira consulta ao ginecologista. Isso depende muito da menina ou da adolescente.
O primeiro passo é orientar as mulheres para que orientem bem suas filhas. Atualmente, há aulas de orientação sexual nas escolas, mas como se trata de uma atividade curricular, nem sempre as meninas prestam a devida atenção às explicações, assim como nem sempre é transmitido o que de fato importa. Algumas dominam a teoria, mas não têm a mínima noção de como ela pode ser aplicada em seu corpo no dia a dia. Conhecem o mecanismo menstrual, mas não entendem como funciona a própria menstruação. Por isso, acho fundamental a mãe estar preparada para transmitir à filha a informação necessária a fim de que não se assuste com a menstruação. Ela precisa também tomar cuidado para não lhe transferir todos os seus temores e sofrimentos. Muitas mulheres continuam sentindo cólicas e tensão pré-menstrual, embora atualmente haja recursos terapêuticos para evitá-las.
A partir do momento em que a menina menstruou, se sentir necessidade, deve ser levada ao ginecologista. Nunca deve ser levada à força, contra vontade. A maneira como a mãe encara a imagem do médico ao longo da vida, é de fundamental importância. Se cresceu ouvindo a mãe reclamar das idas ao consultório, não verá com bons olhos a primeira consulta. Agora, se a mãe considera o ginecologista uma pessoa amiga, que vai ajudá-la a conviver melhor com seus problemas ou a resolvê-los satisfatoriamente, a menina aceitará a ideia com tranquilidade. Uma sugestão é a garota ir com a mãe a uma das consultas não como cliente, mas como simples acompanhante.
Drauzio – Sua experiência diz que as meninas procuram o ginecologista quando estão pensando em iniciar a vida sexual?
Mauro Sancovski – O ideal seria que a primeira consulta fosse feita antes do início da vida sexual. Todavia, a experiência diz que as meninas procuram o ginecologista depois disso. A maioria o faz por sugestão da mãe que, ao tomar conhecimento do fato, encaminha a filha ao médico não para fazer exames, mas para receber orientação em termos de prevenção de doenças e de gravidez indesejada. Nessa ocasião, é importante tranquilizar a menina a respeito do exame ginecológico, porque o maior temor é que ele seja traumático.
Na verdade, a criança bem orientada pela mãe, que entrou tranquila no período menstrual, não precisa necessariamente ir ao ginecologista. No caso, porém, de a mãe sentir-se insegura para desempenhar esse papel, deve consultar a filha sobre a possibilidade de receber orientação mais visual e técnica de um médico ginecologista. Nesse primeiro contato, não há necessidade de exames nem da mesa ginecológica. O mais importante é o médico cativar a adolescente e convencê-la de que tem um aliado com o qual poderá contar para qualquer emergência, e que ela pode procurá-lo sem depender da mãe para trazê-la ou não.
EXAME GINECOLÓGICO
Drauzio – Quando uma paciente chega ao consultório pode ficar assustada com o equipamento que vocês usam?
Mauro Sancovski – Vai depender muito do tipo do consultório, se é público ou privado, mas acho importante que ela conheça o ambiente e os equipamentos. No geral, o padrão é semelhante ao que aparece na imagem 5. Nele existe uma mesa ginecológica com dois apoios laterais para colocar as pernas na qual a mulher fica semissentada de maneira a deixar a genitália exposta para ser examinada. Há também um foco de luz e um espelho que pode ser direcionado num ângulo tal que lhe permita ver os órgãos genitais externos e, muitas vezes, também os internos, possibilitando-lhe, assim, a oportunidade de acompanhar o próprio exame ginecológico.
Drauzio – Qual a importância do espéculo para o exame ginecológico?
Mauro Sancovski – O espéculo é um instrumento muito importante para o exame ginecológico. O que aparece na imagem 6 é descartável. Muitas mulheres o chamam de bico de pato e se enchem de pavor só de pensarem usá-lo. Esse é um medo sem fundamento. O exame ginecológico não dói se for feito com cuidado e corretamente pelo médico e a mulher estiver relaxada. Além disso, ele tem a grande vantagem de possibilitar o exame de alguns órgãos internos sem recorrer a outros procedimentos de diagnóstico.
Drauzio – Vamos explicar como ele é usado?
Mauro Sancovski – O espéculo é um aparelho excepcional que permite a visualização do útero. É introduzido na vagina numa posição que não machuca a mulher que precisa estar relaxada nesse momento. Por isso, o médico deve conversar com ela, para que fique tranquila e solte o corpo na mesa, o que facilita muito a introdução do aparelho e o exame. A imagem 7 registra a entrada da vagina e, em marrom, o útero.
Drauzio – A imagem 7 reproduz o que o médico vê quando introduz o espéculo na vagina da mulher?
Mauro Sancovski – O médico consegue ver o colo do útero direitinho. Nessa imagem, estamos colhendo material para o exame de Papanicolaou. Muitas mulheres têm medo injustificado desse exame, que é muito simples. Num movimento circular, com um cotonete ou uma espátula parecida com um palito de sorvete, o médico colhe células superficiais que descamam dessa região, põe numa lâmina onde são coradas e envia a um patologista a fim de identificar suas características.
IMPORTÂNCIA DO TOQUE VAGINAL
Drauzio – A imagem 8 mostra um toque vaginal. O ginecologista introduz dedos na vagina da mulher, com a outra mão sobre o abdomen ajeita a posição dos órgãos e apalpa-os. O que ele quer observar com esse exame?
Mauro Sancovski – O toque é muito importante, porque permite analisar as condições em que se encontram os órgãos internos da mulher. Fazendo o toque, o ginecologista pode examinar o útero e verificar se existe alguma massa ou processo expansivo em desenvolvimento nos ovários, ou se eles estão inflamados. Em muitos aspectos, o ultrassom não consegue substituir o exame clínico do toque que deixa avaliar a posição do útero numa moça com dificuldade para engravidar, por exemplo. Na verdade, esse exame é insubstituível em algumas situações.
ÓRGÃOS GENITAIS INTERNOS
Drauzio – Acho que é importante mostrar a anatomia dos órgãos genitais internos.
Mauro Sancovski – O médico não pode mostrar a anatomia dos órgãos genitais internos no próprio corpo da paciente como consegue fazer com os órgãos externos. Embora não consiga enxergá-los, porque se localizam dentro do abdômen, precisa entender como funcionam.
O útero ocupa o centro da imagem 9. Chamado de mãe do corpo, é o órgão que menstrua, quando a gravidez não ocorre, e alberga o feto durante toda a gestação. Trata-se de um músculo com enorme capacidade de distensão provocada pela disposição de suas fibras que esticam e voltam ao normal depois do nascimento da criança. Apesar de medir apenas 7cm, consegue guardar dentro de si um bebê de 4kg.
De um lado e outro do útero estão os dois ovários, órgãos responsáveis por abrigar as células germinativas da mulher, produzir os hormônios sexuais femininos e desenvolver as características sexuais secundárias (pelos pubianos, desenvolvimento dos quadris e das mamas e tonalidade da voz). Todos os óvulos que uma mulher possui estão com ela desde a vida intrauterina, isto é, desde quando ainda habitava o ventre de sua mãe. Durante toda a infância, eles permaneceram guardadinhos nos ovários e são liberados ciclicamente todos os meses, em geral, um de cada vez. O óvulo é captado pelas trompas, ou tubas uterinas, pequenos canais que desembocam no útero (imagem 10), e caminha por elas estimulado por sua contração ou movimento dos cílios existentes no seu interior. Se por ventura a mulher tiver uma relação sexual no período em que o óvulo está sendo liberado, os espermatozoides atravessarão o colo do útero e chegarão às trompas onde ocorre a fecundação. Unidos, óvulo e espermatozoide transformam-se num ovo que vai se dividindo e caminhando pelas trompas até cair novamente no útero em cujas paredes se fixa.
Drauzio – No exame de toque você consegue sentir todos os órgãos internos?
Mauro Sancovski – No exame de toque consigo sentir bem o útero, saber seu tamanho e posição e perceber se está aumentado. Os ovários também podem ser tocados e dá para dizer se estão normais ou não. Em alguns casos, é mais difícil apalpá-los. Isso indica que não estão aumentados, sinal de normalidade. Em relação às trompas, não se consegue senti-las a não ser que estejam inflamadas. O exame de toque permite identificar grandes patologias do útero, por exemplo. Para definir detalhes, o ultrassom é um recurso muito importante.
EXAME DE PAPANICOLAOU
Drauzio – O exame Papanicolaou é feito a partir de células colhidas no útero. Que informações busca o patologista que examina a lâmina?
Mauro Sancovski – O Papanicolaou é o exame príncipe na prevenção contra o câncer ginecológico. Ele trouxe um grande benefício para a mulher, porque previne o câncer de colo de útero, responsável por muitas mortes no passado. Com uma espátula semelhante a um palito de sorvete ou a um cotonete, num movimento circular, são raspadas as células superficiais do colo uterino (imagem 11). Examinando-as, o patologista consegue identificar alterações celulares sugestivas da infecção pelo HPV (papilomavírus humano), indício importante para a prevenção do câncer de colo uterino.
Drauzio – Com que idade e com que frequência o exame de Papanicolaou deve ser feito?
Mauro Sancovski – Não existe idade definida para esse exame. Entendemos que deva ser feito a partir do momento em que a mulher passa a ter vida sexual ativa. É cabível perguntar, então, se por volta dos 40 anos, a mulher que não tem atividade sexual precisa fazer o Papanicolaou. Ela deve fazer. Mesmo nas virgens, o material pode ser colhido com cotonete sem nenhum trauma. No entanto, a probabilidade de que não tenha problema algum é muito grande, porque é a vida sexual que favorece o aparecimento de alterações no colo do útero. Múltiplos parceiros simultâneos, infecções cruzadas, relação sexual sem o uso de preservativos são fatores de risco para o carcinoma de colo uterino.
A recomendação é que o Papanicolaou, assim como os exames de mama, sejam feitos uma vez por ano. Na rede de saúde pública, muitas vezes, ele é feito a cada dois anos, mas o ideal seria que fosse realizado anualmente.
REGISTRO DO CICLO MENSTRUAL
Drauzio – Na fase da adolescência, que outros problemas podem aparecer no aparelho genital feminino?
Mauro Sancovski – Talvez não seja um problema, mas a adolescente precisa conhecer seu ciclo menstrual. Por isso, deve marcar a data das menstruações, quanto duraram e se o fluxo foi abundante ou não. Existem calendários próprios para esse registro que fornece ao médico ideia mais precisa de como funciona o mecanismo menstrual daquela mulher.
Drauzio – Elas devem marcar as datas porque, depois de algum tempo, a tendência é esquecer, não é mesmo?
Mauro Sancovski – Quando lembram, sabem apenas a data da última menstruação. Por isso, é preciso marcar regularmente. Toda a adolescente possui uma daquelas agendas que vão engordando com recortes, fotografias, etc. Eis um bom lugar para marcar o dia em que desceu a menstruação, se desceu pouco ou muito e quantos dias durou. Dessa forma, no fim do ano, conseguirá organizar os dados necessários para estabelecer o padrão de seu ciclo menstrual.
DÚVIDAS MAIS FREQUENTES
Drauzio – Quais são as dúvidas mais comuns entre as adolescentes que procuram você no consultório?
Mauro Sancovski – Elas têm muitas dúvidas no que se refere à menstruação e ao risco de gravidez. O médico tem que explicar o mecanismo do ciclo menstrual e orientá-las sobre um método de contracepção seguro, se já iniciaram ou querem iniciar a vida sexual.
Muitas adolescentes, apesar da vida sexualmente ativa, não sabem o que seja prazer nem orgasmo. Muitas vão à consulta com os namorados e, quando lhes pergunto se sentem prazer, não sabem sequer informar. Passam a impressão de estarem fazendo uma coisa mecânica, sem grande envolvimento.
Por essa razão, sempre oriento as moças que me procuram antes de terem atividade sexual para não precipitarem a relação se não sentirem que aquele é o momento certo e o parceiro adequado. No entanto, se quiserem ter relação, que a tenham sem culpa, sabendo que, usando preservativos, estarão protegidas contra doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada.
Digo-lhes que, se não estiverem relaxadas, a relação pode ser dolorosa, não haverá prazer e, no fundo, estarão torcendo para que tudo acabe logo. A adolescente precisa ir para um relacionamento sexual segura do que quer, independentemente do que a mãe pensa ou acha, segura de que nada irá atrapalhar ou complicar o exercício de sua sexualidade plena.

Drauzio – Existe uma idade em que o aparelho reprodutor feminino possa ser considerado “amadurecido” para o início da vida sexual?
Mauro Sancovski – Têm ocorrido mudanças no amadurecimento do aparelho reprodutor feminino. Existe mesmo uma antecipação na idade da primeira menstruação. O grande problema não é o amadurecimento do aparelho reprodutor. É a maturidade emocional da menina. Embora sejam muito mais maduras que os meninos da mesma idade, muitas não estão prontas para iniciar a vida sexual e não é pequeno o número das que engravidam. As pessoas estão cada dia crescendo mais. Aos quinze, dezesseis anos, as adolescentes são mulheres de porte grande. O problema não é físico, é de maturidade.
MENSAGEM AOS PAIS
Drauzio – Você tem alguma mensagem para mães e pais dessas meninas em relação à primeira consulta ao ginecologista?
Mauro Sancovski – As mães devem orientar suas filhas a respeito da importância da consulta ao ginecologista. Na verdade, tudo depende de como a mãe apresenta o problema.
Embora não goste desse tipo de discriminação, às vezes faz diferença o profissional ser um homem ou uma mulher. Muitas adolescentes preferem uma ginecologista mulher.
É importante, ainda, a adolescente saber que tudo o que conta ao médico, desde que não a ponha em risco nem tenha um comprometimento sério demais, é um segredo entre os dois que nunca será revelado. Por isso, pode ir ao médico de confiança da mãe, abrir o coração, que ele jamais vai contar o que ouviu. Esse é um dos grandes medos da adolescente. Portanto, é fundamental que ela saiba que todos os médicos têm o dever ético e profissional de manter sigilo absoluto sobre o que disseram seus clientes.
A mãe deve levar a menina ao ginecologista para conversar e receber informações importantes. Ela precisa saber que o exame ginecológico, se absolutamente necessário, será feito na presença da mãe ou da enfermeira, se a menina assim o desejar.
É imprescindível desmistificar a primeira ida ao ginecologista na medida em que não implica um exame minucioso. A menina não está doente. Tudo vai acontecer de acordo com suas necessidades e de acordo com sua vontade.
Drauzio – Quer dizer que estão erradas as mães que não levam as filhas ao ginecologista com medo de que ele lhes dê o aval para iniciar a vida sexual?
Mauro Sancovski – A iniciação da vida sexual vai ocorrer com ou sem o aval do ginecologista ou da própria mãe. A visita ao ginecologista pode representar mais um instrumento para a menina agir de forma mais segura, se ou quando isso acontecer. Muitas mães acham levar a filha ao ginecologista pode ser sinal de que estão corroborando com a ideia de liberação da sexualidade da filha, o que não é verdade. De fato, o que está fazendo é cuidar da saúde física e mental da filha.


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MULHER E SEXUALIDADE.

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Mulher e sexualidade.






Há muito tempo, a sexualidade é assunto tratado com ponderação e bastante restrito ao universo das mulheres. Se em determinados momentos, a figura sexual feminina foi divinizada — pelo poder de dar à luz –, em outros, vigorou uma visão menos romantizada, segundo a qual o prazer sexual era reservado ao homem. À mulher, restava o sexo como um meio para cumprir seu papel na perpetuação da espécie.
Tal visão machista isolava a mulher de uma função natural do corpo, o prazer, para focá-la tão somente na maternidade. Aquelas que se aventuravam a usufruir desse sentimento ficavam mal faladas. Uma espécie de punição moral.
Por consequência, um dos únicos temas discutidos mais abertamente e abordados com menos preconceito são os métodos de contracepção. Como não servem ao prazer e, sim, à prevenção, preocupar-se com as formas de não engravidar passou a ser tarefa quase que exclusiva das mulheres.
A NOVA GERAÇÃO DE ANTICONCEPCIONAIS
Apesar de as mulheres terem hoje maior representatividade social e assumirem múltiplos papéis como chefes de família, profissionais e mães, ainda carregam praticamente sozinhas o fardo do controle da natalidade. Em maio de 2012, a pílula anticoncepcional completou 50 anos e é possível notar que a evolução das tecnologias contraceptivas caminhou na mesma direção das preferências e dos comportamentos femininos de determinadas épocas.
* Veja como funciona a pílula do dia seguinte
Segundo pesquisa realizada pelo Ibope, as mulheres da geração Y (nascidas após 1965) tendem a buscar métodos anticoncepcionais que se encaixem melhor em sua rotina movimentada e se casem com suas prioridades atuais mais centradas na vida profissional. Por isso, elas procuram opções que exijam intervenções mais esporádicas, deem pouco trabalho e tenham menos efeitos colaterais.
A Dra. Cristina Guazelli, professora adjunta do Departamento de Obstetrícia da Escola Paulista de Medicina, explica que as pílulas anticoncepcionais, compostas de estrogênio e progesterona (hormônios que impedem a ovulação), evoluíram e passaram a ter carga hormonal menor que as antigas, mantendo a mesma eficácia.
Foram adicionados, também, hormônios com efeito diurético — que minimizam o inchaço próprio da menstruação — e outros capazes de melhorar a textura do cabelo, suavizar problemas de pele, como a acne, e aliviar a irritabilidade e a cólica, sintomas comuns da TPM (Tensão Pré- Menstrual), amenizando algumas das principais queixas femininas.
* Contracepção além da pílula
Opções envolvendo tecnologias mais avançadas permitem intervalo maior entre uma dose e outra, diminuindo, assim, o risco de esquecimento. Esse é o caso dos anéis anticoncepcionais de silicone, introduzidos no canal vaginal no primeiro dia da menstruação e substituídos a cada sete dias, dos adesivos contraceptivos, que podem ser colados no braço, costas ou virilha também no primeiro dia da menstruação e trocados uma vez por semana e das injeções aplicadas mensalmente.
Para as mulheres que não querem engravidar num futuro próximo, Dra. Carmita Abdo, professora de psiquiatria e coordenadora de estudos em sexualidade da USP, sugere métodos mais estáveis, como o DIU. “Apesar de não ser uma opção nova, ainda dura mais que as versões modernas. Sua remoção é mais trabalhosa e necessita de intervenção médica, mas oferece conforto e evita o esquecimento”, explica.
CONTRADIÇÕES DA EVOLUÇÃO
Quando descobriu que estava grávida pela segunda vez, a cabeleireira Maria Ivone dos Santos decidiu que, após o nascimento da sua caçula, não teria mais filhos. Na época, com apenas 26 anos e sem muito acesso à informação, por sugestão do seu ginecologista, a jovem optou pela laqueadura, um método de esterilização em que são rompidos os ligamentos das tubas uterinas, canal onde o óvulo e espermatozoide se encontram.
O processo é reversível e as tubas podem ser ligadas novamente, mas nesses casos as chances de engravidar caem cerca de 30%. Naquele momento, o procedimento parecia a melhor opção para Maria Ivone. Ela não esperava, porém, que com um novo casamento o desejo de engravidar ressurgisse.
“Queria ter novamente um filho, mas seria um trabalho muito grande passar pela cirurgia de reversão em troca de uma probabilidade bem pequena de engravidar. Assim, acabei desistindo da ideia”, confessa Maria Ivone.
Hoje, com 42 anos, a pernambucana se completa com o papel de avó e acredita que teria tomado uma decisão diferente na época, caso seu ginecologista tivesse mostrado outras opções de contracepção tão eficientes quanto a laqueadura, entretanto com maior chance de reversão.
Para a Dra. Carmita, as pacientes escolhem métodos mais antigos, porque acreditam que os novos não se encaixam no seu perfil, já que muitos médicos nem sequer os sugerem. “Os ginecologistas devem exercer um papel mais ativo na informação sobre métodos contraceptivos, de forma a atender as atuais necessidades das mulheres brasileiras”, afirma.
Confirmando essa hipótese, dados do Ibope mostram que, apesar de terem mais acesso a informações, as mulheres mais jovens acabam optando por contraceptivos mais antigos. Uma vez que não têm conhecimento dos métodos mais novos, 68% dos pacientes continuam escolhendo as pílulas hormonais, enquanto apenas 28% escolhem a injeção.
Além da falta de conhecimento, há ainda a desconfiança em alguns novos medicamentos: 24% das entrevistadas não confiam na eficácia dos adesivos e12% na do anel vaginal. Dra. Cristina explica que esse é um grande equívoco, já que os métodos mais novos são tão ou mais eficientes que os tradicionais. “O anel, por exemplo, evita a gravidez mesmo com taxas hormonais menores que as da pílula, pois o canal vaginal tem capacidade de absorção muito maior que a via oral” .
HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO
Engana-se quem acredita que os métodos contraceptivos são criações recentes. Apesar de ser um assunto controverso para algumas culturas e religiões, os procedimentos de controle da natalidade já eram estudados desde a época da Grécia e Egito antigos.
Os primeiros métodos foram descobertos e registrados pelo pai da medicina, Hipócrates de Quíos, entre os anos de 460 a.C. e 377 a.C., na Grécia. O filósofo descobriu que a semente de cenoura selvagem tinha eficácia contraceptiva.
A utilização de técnicas anticoncepcionais passou a ser tão frequente no cotidiano daquela época que o historiador Políbio registrou queda na natalidade na região do Mediterrâneo no século II a.C.

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INFARTO DO MIOCÁRDIO.

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Infarto do miocárdio: fatores de risco.




Drauzio - Que fatores aumentam o risco de infarto do miocárdio?
Edson Stefanini – O infarto do miocárdio é uma doença multifatorial, ou seja, uma doença provocada por diversos fatores que agem conjunta e simultaneamente. Entre eles, destacam-se:
1) hereditariedade: se na família existirem parentes próximos que tiveram infarto, angina ou foram operados do coração antes dos 60 anos, é preciso estar atento, porque aspectos genéticos são relevantes para o desenvolvimento da doença;
2) pressão arterial: controlar a pressão arterial e mantê-la em níveis adequados é fundamental para prevenir doenças cardíacas. Considera-se pressão arterial normal a que se encontra entre a máxima de 12 e a mínima de 8;
3) diabetes: o controle da glicemia (nível de açúcar no sangue) é indispensável, especialmente se a pessoa já for portadora da doença. Os diabéticos, às vezes, sofrem infartos subclínicos, que não provocam o sintoma convencional de dor no peito. Nesses casos, mal-estar, sudorese, náuseas e até vômitos são atribuídos a algum problema de menor importância;
4) colesterol: o controle do metabolismo das gorduras tem de ser sistemático e permanente. Existem medicamentos eficazes que ajudam manter o valor do colesterol total abaixo de 200 e elevar o nível de sua fração protetora, o HDL, conhecido como o bom colesterol. Exercícios físicos favorecem o aumento do HDL; o cigarro o diminui;
5) triglicérides: em geral, os triglicérides sobem quando há aumento da ingestão de carboidratos;
6) tabagismo: a nicotina é um dos mais agressivos fatores de risco das doenças cardiovasculares. Ficar longe do cigarro é a única opção para quem quer e precisa prevenir-se.
METABOLISMO DO COLESTEROL
Drauzio - Conheci um homem fortíssimo, com mais de 60 anos, que praticava halterofilismo desde menino. Seu colesterol era bem baixo: 138, se não me engano. Numa consulta, perguntou se poderia continuar comendo ovos. Não vi nenhum empecilho. Seu colesterol era seguidamente controlado e nunca tinha apresentado alterações. Por mera curiosidade, quis saber quantos ovos comia e fiquei atônito com a resposta: uma dúzia por dia, porque faço muito exercício e a proteína dos ovos me ajuda a manter a musculatura. Soube depois que, desde os 25 anos, mantinha essa dieta sem reflexo algum nos valores do colesterol. Fato semelhante ocorre com algumas pessoas obesas. No entanto, encontrei gente que apresenta aumento do colesterol se comer um único ovo ou engordar um pouquinho. O que demonstram casos como esses?
Edson Stefanini – Nem sempre é verdadeira a ideia de que quem come muita carne, muita gordura, muito ovo, engorda ou tem colesterol elevado. Pessoas, cujo fígado metabolize bem esse excesso de gordura, não apresentam alterações significativas nos níveis do colesterol no sangue. Entretanto, existem outras que, apesar da dieta restrita e equilibrada, possuem colesterol elevado, porque suas funções hepáticas são desfavoráveis ao metabolismo das gorduras. Essas precisam ser medicadas. É importante deixar isso bem claro, pois é falsa a ideia de que quem é magro, faz exercícios e observa uma dieta pobre em gorduras não precisa avaliar a dosagem do colesterol no sangue.
ESTRESSE
Drauzio - O estresse também é indicado como um dos fatores responsáveis pelo infarto. No entanto, como não ficar estressado se vivemos numa cidade caótica, trabalhando mais de 12 horas por dia?
Edson Stefanini – Inúmeras são as manifestações orgânicas provocadas pelo estresse. Além de úlcera, hipertensão, queda de cabelo, o estresse pode aumentar a probabilidade de manifestação das doenças coronarianas, desde que associado a outros fatores de risco. Muitos me perguntam se estresse pode causar morte súbita por infarto. De certa forma, ele pode ser o empurrãozinho que faltava. Se já existia predisposição anterior em virtude da existência dos outros fatores, estresse muito violento pode ser fatal. Por isso, como medida preventiva, a orientação dada aos pacientes é evitar situações que habitualmente provoquem tensão. Não é fácil, mas é possível. Organizar melhor os horários, tentar resolver os problemas pendentes, deixando de lado os que não conseguimos resolver, talvez seja um bom começo.
Drauzio - Diante de uma pessoa evidentemente estressada, quantas vezes não recomendei que tirasse férias, se afastasse dos problemas, procurasse viver mais tranquila. Recomendei o que não faço, porque é difícil ficar indiferente ao que se passa ao redor. Entretanto, o estresse é um mecanismo criado pela natureza visando à sobrevivência e a teoria da evolução explica por que não desapareceu. Quem não se estressava ficava olhando o leão aproximar-se e era comido por ele. Hoje, a ameaça não se reduz a momentos esparsos de grande tensão. Transformou-se no cerco diário representado por contas a pagar, promissórias a serem quitadas, cara feia do chefe, desentendimentos familiares e violência urbana. Esse estado de pressão permanente acelera o pulso, a frequência cardíaca e piora a irrigação do miocárdio. Que peso tem o exercício físico para reduzir o estresse já que não se consegue evitar as atribulações do dia a dia?
Edson Stefanini – A experiência clínica tem demonstrado as vantagens da atividade física diária no controle do nível de estresse. Não há necessidade de ser um exercício intenso como correr a maratona. Basta meia hora por dia, pelo menos quatro vezes por semana, e o nível de tensão cai consideravelmente. Os benefícios não são apenas físicos. Concomitantemente, ocorre um relaxamento psíquico e emocional que faz as pessoas se sentirem com mais pique para encarar o dia a dia.
Além disso, estudos comprovam que a probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares é menor em quem se exercita regularmente. Em se tratando de hipertensos, por exemplo, a atividade física ajuda a controlar a pressão arterial. Esses pacientes, porém, precisam estar sob supervisão médica. Se o indivíduo já apresenta fatores de risco coronarianos, não pode sair por aí correndo ou entrar numa academia sem avaliação prévia de suas condições orgânicas. É preciso verificar a pressão arterial, fazer eletrocardiograma e teste ergométrico a fim de analisar sua performance quando submetido a esforço. Alterações importantes no eletrocardiograma e na pressão arterial podem significar deficiência coronariana ou cardiopatia isquêmica. Os portadores dessas patologias exigem orientação meticulosa antes de aderirem ao programa de condicionamento físico essencial ao tratamento. Exercícios são indicados, também, para quem sofreu infarto agudo do miocárdio, não só como parte do processo de reabilitação, mas como prescrição terapêutica durante o acompanhamento clínico posterior, que precisa ser mantido indefinidamente.
TABAGISMO
Drauzio - Não se pode contestar que o cigarro está incluído entre os fatores de risco das doenças cardíacas. Muitos fumantes jovens (chamo de jovens os que estão entre 35 e 50 anos) têm infarto do miocárdio. Que peso tem o cigarro nessa fatalidade?
Edson Stefanini – O tabagismo é considerado um dos mais importantes fatores de risco do infarto. Por isso, procura-se combater, com veemência, o cigarro, principalmente nas pessoas que além de fumantes apresentam outros fatores de risco para as doenças coronarianas. Não podemos mudar de pais nem as características que deles herdamos, mas podemos afastar os danos que o fumo traz consigo. A medicina moderna já oferece alguns recursos para combater a dependência de nicotina.
Drauzio - Você poderia explicar o que acontece com a coronária quando o fumante dá uma tragada?
Edson Stefanini – O cigarro contribui para a aceleração da aterosclerose e para tornar mais instáveis os quadros de insuficiência coronariana. A nicotina aumenta a frequência cardíaca e a probabilidade de espasmo dos vasos sanguíneos. Aumenta, também, a predisposição da placa aterosclerótica para formar coágulos. Portanto, o risco de o fumante ter infartos e anginas é altíssimo.
Drauzio - Se uma pessoa, que fumou durante 20 anos, deixar de fumar, quanto tempo leva para desaparecerem os efeitos da nicotina sobre o coração?
Edson Stefanini – Os efeitos agudos da nicotina desaparecem logo. Naturalmente o fato de a pessoa ter fumado durante 20 anos deixou sequelas no organismo. Por exemplo, placas ateroscleróticas podem ter-se formado, mas a probabilidade de permanecerem estáveis aumenta muito, se a pessoa deixar de fumar. Por outro lado, se outros fatores de risco estiverem fora de controle, fumar acelera a desestabilização da placa e o aparecimento de quadros agudos coronarianos, como dores no peito, angina, infarto agudo do miocárdio e até morte súbita.
Drauzio - É importante esclarecer que fumam muito não só quem fuma dois ou três maços, mas as pessoas que fumam mais de cinco cigarros por dia. Como podem os médicos auxiliar os pacientes a vencer a dependência do fumo?
Edson Stefanini – Atualmente se procura convencer a pessoa de que não há outra saída a não ser parar de fumar. É frequente ouvirmos, no consultório, que alguém fumava dois maços por dia e que agora fuma um ou outro cigarro. Infelizmente, esse propósito é transitório porque, sem que se dê conta, logo terá voltado a fumar um maço, um maço e meio por dia. Por isso, a solução não admite meios termos. É preciso abandonar de vez o cigarro. Os médicos, além de aconselhamento e orientação psicológica, podem intervir farmacologicamente prescrevendo medicamentos. Existem adesivos de nicotina que ajudam a diminuir os efeitos da síndrome de abstinência. A nicotina é uma droga poderosa que provoca dependência física brutal. Quando o fumante para repentinamente de fumar, por alguns dias pode sentir-se muito mal, ficar ansioso, desesperado mesmo. Por isso, parar de fumar é tão penoso quanto se livrar de qualquer outra dependência química.
Drauzio - É revoltante pensar que o público alvo da publicidade do cigarro é a criança. Se elas soubessem como sofrerão para libertar-se dessa dependência, jamais poriam um cigarro na boca. Toda droga tem sua armadilha; a da nicotina é o primeiro cigarro.

PREVENÇÃO SECUNDÁRIA
Drauzio - Até este ponto da entrevista falamos mais da prevenção do infarto. Fale um pouco sobre o que devem fazer os pacientes que já tiveram infarto e temem ter outro?
Edson Stefanini – Embora fosse maravilhoso, é utópico imaginar que poderíamos detectar e combater os fatores de risco na população como um todo. Por isso, a grande batalha do cardiologista concentra-se na prevenção secundária, isto é, no atendimento a pessoas que já tiveram uma doença coronariana – angina, arritmia, infarto do miocárdio – ou fizeram cateterismo. Vencida a fase aguda da doença, elas entram num programa de prevenção secundária, ou seja, identificação e controle de todos os fatores de risco. Se forem fumantes, não têm escolha: precisam parar de fumar.
Hipertensão, diabetes, níveis elevados de colesterol recebem atenção e cuidados específicos. Procura-se orientar esses pacientes em relação ao nível de estresse, pois devem redimensionar as atividades e descobrir uma forma menos desgastante de encarar os problemas do dia a dia.
Pessoas com problemas coronarianos recebem obrigatoriamente um esquema de exercícios físicos que vai desde de um programa sofisticado realizado em academias especializadas na reabilitação de doentes cardiopatas, até os mais simples, como caminhar pelas ruas ou parques. Nos dois casos, porém, o acompanhamento médico é indispensável para estabelecer o nível de esforço adequado para cada uma.
Basicamente é esse o programa a que se submete uma pessoa que já sofreu infarto agudo do miocárdio. Observá-lo é fundamental, pois o controle dos fatores de risco pode prevenir um novo acidente vascular. Além disso, também previne sintomas de angina que podem requerer hospitalização, angioplastias ou cirurgias de revascularização.

Drauzio - Muita gente toma o primeiro infarto como aviso de que algo grave pode acontecer a qualquer momento. Na sua experiência como cardiologista, a vida dessa gente muda radicalmente para melhor ou, como suicidas, muitos repetem os mesmos erros?
Edson Stefanini – Temos alguns exemplos de pessoas estressadas que viviam num redemoinho. Trabalhavam em quatro ou cinco lugares diferentes, fumavam muito, estavam acima do peso, não controlavam os níveis de colesterol nem do açúcar e tinham antecedentes familiares de infarto do miocárdio. Depois do primeiro infarto, felizmente pequeno e com sequelas menos significativas, essas pessoas realmente mudaram de vida. Passaram a controlar os fatores de risco, diminuíram o ritmo das atividades, dedicaram pelo menos duas horas por dia ao lazer e transformaram-se em símbolos do consultório. O problema é que nem sempre é assim. Muitas, passado o susto inicial, retomam os hábitos antigos e, na maioria das vezes, arcam com consequências que poderiam ser evitadas.
Drauzio - Certa vez, perguntei, ao dr. Sérgio Simon, médico cancerologista, se pudesse escolher, preferiria morrer de câncer ou de infarto. Dr. Sérgio respondeu que preferia morrer de câncer. E você, como escolheria morrer?
Edson Stefanini – Eu preferiria não escolher nenhuma das alternativas. Todavia, tenho a impressão de que a morte súbita é uma forma menos sofrida de morrer. Uma vez obrigado a escolher, acho que seria essa minha opção.

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OBESIDADE.

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Obesidade.

 
Bernardo Leo Wajchenberg é médico. Professor de endocrinologia, influenciou a formação de inúmeros profissionais dessa área em todo o Brasil.

A obesidade é um dos problemas mais importantes que a Saúde Pública enfrenta hoje no Brasil e em outros países do mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera que, atualmente. nos países desenvolvidos, ela seja o principal problema de saúde a enfrentar.
Por que as pessoas estão engordando tanto? De onde vem esse desespero pela comida e a dificuldade para perder peso? A resposta, por certo, poderá ser encontrada nas raízes evolucionistas do homem. Há 50 mil anos, nossos antepassados tinham grande dificuldade para conseguir alimentos. A possibilidade de estocá-los é contemporânea ao advento da agricultura há dez mil anos, um segundo em termos evolucionistas. Essa carência alimentar moldou o cérebro humano de tal maneira, que ele busca obter o máximo de calorias possível para mobilizar energia acumulando-a sob a forma de gordura que, teoricamente, será usada nos períodos de fome provocados pela escassez de comida.
Entretanto, no mundo moderno, a realidade é bem diferente. A geladeira pode conservar alimentos variados por dias e semanas. Basta abri-la para saboreá-los. A propaganda nos incita a comer produtos altamente calóricos por preço razoável. Basta uma ligação telefônica para temos comida de diversos tipos e nacionalidades entregue, em poucos minutos, na porta das nossas casas.
Nosso cérebro condicionado em tempos de penúria agora encontra fartura e o mecanismo evolucionista que selecionou pessoas capazes de acumular gordura, decisão inteligente no passado, se volta contra elas. Reverter esse processo é tarefa árdua e muitas vezes inglória. No entanto, é preciso estar alerta. O excesso de peso está associado a uma série de doenças que comprometem a qualidade e a duração da vida.
DESEQUILÍBRIO ENTRE INGESTÃO E QUEIMA DE CALORIAS
Drauzio – Você, que tem grande vivência clínica e enfrentou pessoalmente o problema da obesidade, como enxerga a dificuldade de tantas pessoas para perder peso?
Bernardo Leo Wajchenberg – O homem moderno está pagando as contas pela facilidade de conseguir alimentos. Além disso, a tendência ao consumo do fast-food representa sério empecilho para resolver o problema. Na hora do almoço, em vez de sentar-se e comer arroz com feijão e salada como se fazia antigamente, a pessoa aproxima-se dos balcões das lanchonetes e se contenta com um hambúrguer e um milk-shake, alimentos de alto valor calórico que provocam sensação de saciedade. A gordura tem essa vantagem: comê-la garante sensação de bem-estar, de estômago cheio. Por outro lado, a vida moderna está marcada pela falta de atividade física e não há o gasto calórico suficiente. Ninguém anda mais. Todos se valem do transporte coletivo ou, o que é pior, do individual. Portanto, estamos comendo mais e gastando menos. Do ponto de vista termodinâmico, estamos armazenando calorias. É bem verdade que existem indivíduos, infelizmente a minoria, que comem muito e gastam muito também. A regra, porém, não é essa.
Já se procurou, por muitos anos, uma causa metabólica primária para a obesidade. Existem as formas ditas genéticas que são extremamente raras, raríssimas. Até hoje, encontrei apenas um indivíduo de cabelos vermelhos obeso (os ruivos podem ter um defeito na produção de melanocortina), mas esse achado tem valor apenas para o estudo da fisiopatologia da obesidade.
Então, a experiência que tenho é muito ruim. Eu e todo o mundo. O que costumo sugerir para os obesos é uma alimentação razoável, porque dietas muito restritivas não têm mais cabimento nos nossos dias. O indivíduo não deve perder muito peso. Em torno de 7kg a 10kg no prazo de alguns meses melhora as complicações que a obesidade traz consigo.
O problema é tão sério que o número de cirurgias da obesidade, ou bariáticas, aumenta a cada dia. Para muitos obesos mórbidos não existe outra solução apesar de estarmos substituindo uma doença por outra.
O procedimento cirúrgico mais frequente em nosso meio é a cirurgia de Capela em que se reduz o volume do estômago. Não se consegue interferir, porém, na vontade de comer. O paciente para de comer porque se o fizer vomita, não aguenta o mal-estar. Conheço um indivíduo que passou a tomar leite condensado, alimento de alto valor calórico, como se sabe, mas que é aceito pelo estômago cuja capacidade ficou reduzida a 20cm³ aproximadamente.
TENDÊNCIA AO SEDENTARISMO
Drauzio – Em geral, os obesos são vistos como pessoas desavergonhadas, de caráter fraco, o que injusto.
Bernardo Leo Wajchenberg – Isso é um absurdo. É inconcebível tal julgamento. Ninguém quer ser gordo. Eu, que sou um semigordo e fui um grande obeso tinha vergonha da minha condição e não ia à praia nem ao clube. O problema da obesidade está relacionado com o ambiente familiar, a genética e o sedentarismo. Decorre, em parte, como consequência da vida moderna e da falta de ensinamentos sobre a necessidade de praticar esportes. Só os adolescentes o fazem. A regra é que com o passar dos anos o indivíduo se mexa menos e coma mais. O rapaz se casa, por exemplo, as responsabilidades aumentam, ele come mais e engorda. Quando estudei nos Estados Unidos, reparei que eram gordos os diretores da instituição. A arraia-miúda, o pessoal de baixo, era toda magra.
A obesidade de per si não é um mal, se o obeso não apresentar outros fatores de risco, como colesterol elevado, hipertensão, diabetes. Não me lembro de nenhum paciente meu, um grande obeso, que tenha ultrapassado os 50 anos. Todos morreram antes de complicações cardiovasculares, de fraturas seguidas de embolia pulmonar, etc.
Em alguns países, há grupos populacionais em que a obesidade é mais frequente. Nos Estados Unidos, por exemplo, os índios que vivem no Arizona constituem um caso típico. Eles eram pobres, trabalhavam no campo e eram magros. Quando foi descoberto petróleo em seu território, as companhias petrolíferas lhes compraram as terras, deram-lhes royalties e eles pararam de dedicar-se à agricultura familiar. Como consequência, a obesidade tornou-se prevalente entre eles.
Drauzio – Quanto mais pobre a pessoa, maior é a tendência para comer mais gordura e mais carboidrato?
Bernardo Leo Wajchenberg – O problema está na comida com alto valor calórico. Em países da Europa Ocidental e nos Estados Unidos, está caindo o número de obesos na classe A, ao passo que nas classes B e C esse número está subindo. Outra constatação triste é que o exercício físico não faz parte dos hábitos de vida dessa população. No meu ponto de vista, andar não ajuda a pessoa a perder peso. Já fiz um cálculo uma vez e cheguei à conclusão de que eu teria de caminhar 40km para perder um quilo. O exercício tem que ser aeróbico. Nas academias e clubes, só há jovens e umas poucas pessoas mais velhas que se acostumaram na juventude com a atividade física.
A obesidade é um problema muito sério e não há empenho por parte das autoridades governamentais para resolvê-lo de vez. Tenho uma triste opinião que compartilho com pesquisadores americanos a respeito desse assunto. Aos governos não interessa acabar com o problema. As indústrias envolvidas na fabricação de produtos para o controle da obesidade, as academias e outras instituições frequentadas por quem quer emagrecer rendem valores altos em impostos. Campanhas como “São Paulo, mexa-se!” são importantes, mas pouco eficientes e perdem para o apelo do interesse comercial.
TECIDO ADIPOSO: MAIOR GLÂNDULA ENDÓCRINA
Drauzio – Na época em que fui seu aluno na faculdade, o tecido adiposo era considerado um tecido inerte, mero depósito de células gordurosas que acumulavam energia para ser queimada num momento de necessidade. Esse conceito mudou completamente, não é mesmo?
Bernardo Leo Wajchenberg – Hoje está provado que o tecido adiposo é a maior glândula endócrina do organismo. Existem dezenas de hormônios produzidos por ele, hormônios ligados à hipertensão (angiotensinogênio) e ao apetite, como a lepitina, por exemplo. Quanto mais gordura, maior a produção desse hormônio que age no cérebro e faz diminuir o apetite. O obeso, porém, que tem muita lepitina, desenvolve resistência a ela. Se não fosse assim, ninguém seria gordo.
Drauzio – Quando a pessoa perde gordura, a lepitina cai. Nesse caso, o que acontece com a fome?
Bernardo Leo Wajchenberg – A lepitina não tem muito a ver com a fome no grande obeso, como tem nos não obesos e nos animais experimentais. Por isso, é dificílimo tratar da obesidade. A experiência me mostra que deve ser dada uma orientação dietética aos pacientes. A dieta baseada em pontos atribuídos a cada alimento pode ajudar. Idealmente existe uma série de alimentos que devem ser evitados. Isso não quer dizer que nunca mais se possa comer pizza ou beber uma ou duas doses de uísque por semana, desde que alguma coisa de valor calórico equivalente seja retirada do cardápio daquele dia.
E aí fica evidente a necessidade do exercício físico, o verdadeiro nó da questão. O adulto de meia idade, a maioria em minha clínica, não faz. Já propus ir com eles para a academia, porque conheço as técnicas e posso orientá-los. Nenhum tem tempo. Nem mesmo depois de um infarto. No começo, adotam um programa de exercícios, mas logo voltam ao velho esquema sedentário.
No caso dos diabéticos, a obesidade é um fator de risco importante e reduzir o peso faz com que melhorem bastante. Eles conseguem perder peso por algum tempo, mas depois voltam a engordar. Manter o peso é um desafio muito complicado.
TRATAMENTO COM DROGAS CONTRA A OBESIDADE
Drauzio – Qual é sua impressão sobre as drogas usadas nos tratamentos contra a obesidade? Os médicos, em geral, defendem posições bastante contraditórias a respeito de seu uso.
Bernardo Leo Wajchenberg - A palavra droga define por si só as características dessas substâncias. Penso que usar drogas é uma droga. O bom seria poder evitá-las sempre. Mas qual é a alternativa que posso oferecer a meus pacientes? Experimento as mais variadas mudanças nos regimes alimentares. Nenhum resultado. Introduzo, então, as drogas mais leves, embora não haja estudos comparativos sobre a ação das mais potentes a longo prazo. É verdade que elas têm efeitos colaterais. Os psiquiatras me contam que vêem isso todos os dias. Eu não vejo nunca. Vez ou outra alguém se queixa de palpitação ou de insônia. Nesses casos, prescrevo um tranqüilizante.
O problema é que o uso dessas drogas precisa ser contínuo, o que as faz perder a eficácia, e é preciso mudá-las ou fazer combinações. É uma pena que isso não seja ensinado aos alunos de medicina na faculdade.
Drauzio – O fato é que o tempo de duração desses tratamentos tornou-se uma discussão importante para a ciência.
Bernardo Leo Wajchenberg – O tratamento deve ser mantido no mínimo por cinco anos. Estudos realizados pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos mostraram que, usando a droga por cinco anos, o paciente mantinha a perda de peso. Embora a tendência fosse perder e ganhar um pouco de peso ao longo do tratamento, o balanço era a favor da perda.
Tenho pacientes que estão tomando essas drogas por mais de oito anos e conseguem manter de 10kg a 15kg a menos com melhora significativa de todos os outros fatores de risco. Os residentes que trabalham comigo acham estranho que nunca tenham aprendido isso. Eu acho um absurdo.
Existem drogas modernas como a sibutramina, com menos efeitos colaterais, mas que não resolvem o caso dos grandes obesos. No começo é ótima, mas com o tempo perde o efeito. Existem outras que diminuem a absorção intestinal de gordura. Essas são menos eficientes, quando se suspende a ingestão de gorduras e têm efeitos adversos como a incontinência fecal. Contra as drogas antigas há o tabu de que fazem mal. Eu as uso e recomendo. Não como primeira opção. A primeira opção é a dieta e a mudança de hábitos. Alguns raros indivíduos conseguem manter o peso depois que emagreceram. O grande gordo não. Toma a droga, emagrece dez quilos, acha horrível a dieta e volta a comer e a engordar. É o chamado efeito sanfona.
PERDA DE PESO NOS DOIS GÊNEROS
Drauzio – Quem engorda mais fácil e quem tem maior dificuldade para perder peso, os homens ou as mulheres?
Bernardo Leo Wajchenberg – Os homens perdem peso com mais dificuldade por causa da vida que levam. As mulheres perdem mais facilmente por interesse pela aparência do próprio corpo. A longo prazo, porém, ambos continuam gordos a não ser nos casos raros em que o individuo adere à medicação. Tenho alguns pacientes nessa situação. Eles me telefonam e dizem que o remédio deixou de funcionar e eu faço outra associação de drogas. Não é a conduta ideal. O ideal é a mudança de comportamento.
A propósito, gostaria de comentar que o governo americano patrocinou um programa chamado Diabetes Prevention Program (DPP), Programa de Prevenção ao Diabetes, que custou 150 milhões de dólares. Eles mostraram que os indivíduos que aderiram à mudança de estilo de vida e aos exercícios perdiam mais peso e reduziam o desencadeamento das complicações do diabetes em seis anos. Fiquei surpreso e fui conversar com quem apresentou esse trabalho num congresso em Glasgow, em 2001. Soube que o grupo de cinco mil pacientes que fazia parte do estudo foi selecionado por anúncio de jornal e cada um recebia uma ajuda de custo para não interromper a experiência. No dia a dia, os resultados não são os mesmos.
Os endocrinologistas não podem desprezar as características de comportamento do obeso. A Behavior Therapy (Terapia Comportamental), teoria desenvolvida por um cientista da Filadélfia, visa exatamente à mudança de comportamento desse paciente.
TERAPIA COMPORTAMENTAL E EMAGRECIMENTO
Drauzio – Em que consiste a terapia comportamental utilizada nos casos de emagrecimento?
Bernardo Leo Wajchenberg - Não conheço exatamente o processo, mas sei que o indivíduo conversa com o psicólogo ou com uma pessoa habilitada para o trabalho que faz sugestões para a mudança da dieta, do comportamento alimentar e cobra os resultados. No início, as sessões são semanais. Com o passar do tempo, sessões de reforço são realizadas pelo menos uma vez por mês. Infelizmente, isso consome tempo, custa caro e não é pago pelo governo.
Não tenho informação de nenhum centro no Brasil dedicado a esse tipo de serviço, mas sei de algumas pessoas que se beneficiaram com o tratamento. Em recente congresso, o grupo de Filadélfia da Sociedade Americana de Diabetes apresentou trabalhos com resultados encorajadores. O paciente perde de 7% a 10% do peso corpóreo e mantém esse valor por anos a fio.
Drauzio – Num estudo comparativo entre os diversos tipos de dieta para emagrecer, os institutos nacionais de saúde dos Estados Unidos (NHI) concluíram recentemente que uma pessoa costuma perder com as dietas até 10% de seu peso corpóreo. Quando acompanhadas depois de um ano, 50% delas voltaram ao peso original e cinco anos depois praticamente todas readquiriram os quilos perdidos.
Bernardo Leo Wajchenberg – Qualquer regime pode ter esse resultado. Por isso, a importância da mudança de comportamento. Acompanhei no Hospital Sírio-Libanês um grupo de obesos e as psicólogas me disseram que estavam pensando em introduzir a Teoria Comportamental com reforço contínuo no tratamento da obesidade. Não sei se os planos foram concretizados, mas é fundamental que iniciativas como essa sejam postas em prática.
FALTA DE PREPARO ACADÊMICO
Drauzio – Você acha que nós médicos somos preparados nas faculdades de medicina para lidar com um problema tão sério quanto esse?
Bernardo Leo Wajchenberg – Acho que não. Aliás, de certa forma, os cursos das faculdades são irrelevantes. A formação médica vai se alicerçando depois da formatura com a aquisição de novos conhecimentos que surgem numa velocidade espantosa nos últimos tempos. Por exemplo: há 20 anos o diabetes constituía um ramo pequeno da endocrinologia. Hoje, é maior do que todos os outros assuntos somados. Nos congressos, as sessões sobre diabetes são as que têm maior número de ouvintes médicos. Eu me especializei em diabetes e obesidade, embora trate de outras doenças da mesma área. Todo diabético adulto é obeso até que provem o contrário. Quando não é obeso, é preciso investigar o que possa estar interferindo em seu emagrecimento.
PREVISÕES PARA OS PRÓXIMOS 50 ANOS
Drauzio – Como você acha que o problema da obesidade vai ser r4solvido no futuro?
Bernardo Leo Wajchenberg - Diz um ditado popular que o futuro a Deus pertence. Não posso fazer previsões. Quando vi o primeiro computador em 1964, enorme, achei que não teria muita utilidade. Hoje, ele está aí, em todo o canto, pequeno e popular.
Entretanto, posso imaginar que se as coisas continuarem do mesmo jeito, o número de obesos vai aumentar. Nós, que vivemos no hemisfério sul, podemos ter uma ideia do que pode nos acontecer, se olharmos para o número de casos de obesidade em nossos irmãos do hemisfério norte.
Vejo que a educação na infância é a única forma para tentar resolver o problema. Não se pode induzir a criança a comer batata frita como um prêmio nos finais de semana. Isso não é prêmio, é punição. Batata frita tem alto valor calórico e muita gordura saturada. A educação deve começar em casa. Agora, me pergunto como médico e como pai de família: desde quando temos tempo para almoçar ou jantar com nossos filhos? Refeições em família tornaram-se um evento raro em nossas vidas. Com isso, não ajudamos a criar hábitos alimentares saudáveis nas crianças, que acabam engordando.
Quero frisar, também, que nos últimos anos me impressionaram os casos de obesidade na infância e na adolescência nos quais o fator desencadeante foi a separação dos pais. Se existe tendência na família, conflitos emocionais desse tipo podem ser a origem do problema.
Drauzio – Você disse que a genética é responsável apenas por pequeno número de casos de obesidade. O que me intriga é ver, muitas vezes, um casal obeso com filhos pequenos também obesos.
Bernardo Leo Wajchenberg – Isso me faz lembrar os quadros do pintor colombiano Botero, em que o pai e a mãe são gordos, o filho é gordo e o gato também é gordo. Trata-se, porém, de uma situação diferente da encontrada naqueles casos raros determinados pela genética, como os de obesidade mórbida em indivíduos com cabelos cor de fogo.
Na verdade, não se pode negar que exista um componente genético familiar que ainda não foi bem definido. Um dos mais famosos cientistas no estudo da obesidade no Canadá, publica todos os anos um relatório dos genes envolvidos nessa doença, mas até agora não foram definidos exatamente quais são eles. Sabe-se que se trata de uma doença em que estão envolvidos múltiplos genes. Somos capazes de entender as doenças monogênicas, isto é, aquelas que estão associadas a um único gene. Para as outras ainda não foi encontrada explicação. É o caso do diabetes e da hipertensão, patologias que estabelecem interações gênicas de altíssima complexidade.
Não acredito que se encontrem soluções para essas doenças num futuro imediato, mas espero que a cura para ela apareça nos próximos 50 anos.
Drauzio – Você espera viver para assistir a essa descoberta?
Bernardo Leo Wajchenberg – Não espero nem quero. Também não cabe a mim decidir isso. Sou apenas um joguete nessa história. No momento, doença poligênica é ainda um brinquedo nas mãos dos pesquisadores. Você encontra em todos os números da revista Diabetes trabalhos sobre genética. Um dia, alguém acaba acertando e descobre a solução para esse enigma.

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TABAGISMO.

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Tabagismo.



O cigarro industrializado se disseminou feito praga pela Europa e pelas Américas, especialmente a partir da Primeira Guerra Mundial. A publicidade associava-o a um hábito elegante e sofisticado de viver e, dependendo do contexto, a uma forma de inserção social. Em “Casablanca”, clássico do cinema romântico americano, rodado em 1943, em plena Segunda Grande Guerra, são inesquecíveis as cenas em que o carismático e talentoso Humphrey Bogart dá longas tragadas ao som de “As time goes by”.
Entretanto, nos anos de 1950, alguns trabalhos começaram a demonstrar que o cigarro era capaz de provocar câncer em animais, constatação que as companhias tabaqueiras lutaram por desqualificar. Investindo maciçamente em tal propósito, durante muitos e muitos anos, atingiram seu objetivo. No início da década de 1970, porém, vozes se levantaram contra tamanho absurdo e chamaram atenção para os males que o cigarro provoca. No Brasil, o professor José Rosemberg foi o primeiro a veicular esse conhecimento e a engajar os médicos na luta contra o tabagismo.
CRUZADA ANTITABAGISTA
Drauzio – O senhor começou essa cruzada antitabagista nos anos 1970. O que o levou a perceber que o cigarro era um problema gravíssimo de saúde pública?
José Rosemberg – Como médico, sabia que o cigarro era mortal, mas não dedicava tanto tempo a divulgar essa informação, porque minha especialidade é a tuberculose. Todavia, em 1970, um amigo dinamarquês, que era presidente e diretor da Organização Mundial de Saúde, me pediu para divulgar na classe médica a importância do combate ao tabagismo, uma vez que a OMS pretendia lançar o primeiro Dia Mundial de Combate ao Tabagismo (31 de maio). Atendendo ao seu pedido, consegui aprovar a primeira Semana Universitária Antitabágica na PUC/SP, que se transformou num grande fórum de discussão a respeito desse tema.
Nessa ocasião, escrevi um artigo de mais ou menos vinte páginas sobre tabagismo e coloquei numa gaveta. Quando o reli, vi que ele não convenceria nem mesmo os médicos interessados no assunto. Redigi, então, uma monografia que foi publicada no primeiro número especial da revista da PUC/SP. A essa publicação seguiu-se “Tabagismo: Sério Problema de Saúde Pública”, laureado pela Academia Nacional de Medicina, o primeiro livro científico brasileiro sobre o tabaco como grave problema de saúde pública. Daí em diante, tenho me dedicado a campanhas de esclarecimento junto à classe médica a respeito do tabagismo.
Atualmente, sou presidente da Comissão de Tabagismo da Associação Médica Brasileira, que tem alcance muito grande, e membro da Comissão Antitabagismo criada pelo Conselho Federal de Medicina. Sou também presidente honorário da Comissão Latino-Americana Antitabágica e presidente do Comitê Coordenador do Tabagismo no Brasil. Esses cargos facilitam meu contato com os médicos e, de vez em quando, com o público leigo como está acontecendo nesta entrevista, que considero muito importante para informar a população sobre os prejuízos que o cigarro provoca.
INDÚSTRIA DO FUMO
Drauzio – Nos anos 1970, quando o senhor começou esse trabalho, como os médicos recebiam a informação de que o cigarro era mortal?
José Rosemberg – A maioria com muito interesse. Havia médicos fumantes que, evidentemente, se interessavam menos. Em 1985, conseguimos formar a primeira comissão junto ao Ministério da Saúde (éramos oito ou dez médicos, mas gostaria de nomear os professores Mário Rigatto, Edmundo Blundi). Tínhamos o trabalho clandestino de elaborar um programa antitabaco. O ministro da saúde da época, Valdir Arcoverde, nos disse – “Quero que vocês apresentem um programa de combate ao fumo, mas, pelo amor de Deus, não digam nada a ninguém, porque a sabotagem contra ele vai ser grande e não tenho meios para combatê-la”. Desse modo, durante um ano, nos reunimos em sigilo, uma vez por mês, em Brasília, elaboramos o primeiro Programa Nacional de Combate ao Tabagismo e José Sarney, presidente da república na época, sancionou o projeto que instituía o dia 29 de agosto como Dia Nacional de Combate ao Tabagismo.
Drauzio – A pressão violenta que levava o ministro da saúde a pedir que o trabalho fosse feito em sigilo era basicamente exercida pela indústria do fumo que na época controlava os meios de comunicação?
José Rosemberg – A indústria tabaqueira internacional – todas elas são multinacionais – controlam os meios de comunicação do mundo. Para ter uma idéia, o programa do congresso norte-americano contra as companhias tabaqueiras fez vir à tona mais de 40 milhões de páginas de atas secretas nas quais, desde 1945, estavam registrados pronunciamentos de técnicos e biólogos a respeito da dependência da nicotina como mais forte do que a da cocaína e heroína. Portanto, muito antes da ciência oficial, a indústria do tabaco já dominava esse conhecimento.
No entanto, ela continuou trabalhando para conseguir geneticamente plantas de tabaco que produzissem maiores teores de nicotina e obtiveram a espécie Y1. As primeiras duzentas toneladas foram plantadas no Rio Grande do Sul, e o próprio plantador percebeu a força que tinha essa planta, chamada de tabaco louco ou fumo louco, pelas lesões que provocava na pele. Felizmente, o governo brasileiro se recusou a conceder patente para tal produto e o mesmo fez o governo norte-americano. No entanto, neste momento, 21 países do mundo fabricam cigarros com fumo louco, que têm teor de nicotina três vezes maior do que o tabaco comum. E o pior, trata-se de nicotina livre, que vai diretamente para o cérebro e é diferente da nicotina presa por sais minerais. Como se vê, o mundo está sendo invadido pelo fumoY1, uma droga psicoativa muito mais difundida e consumida do que a cocaína, a heroína e outras drogas pesadas.
PANDEMIA DO TABACO
Drauzio – Em seu livro ” Nicotina - Droga Universal”, o senhor se refere à epidemia do tabaco como um problema mundial.
José Rosemberg – Mostro nesse livro que se trata de uma pandemia sem igual. De fato, podemos dizer que a epidemia moderna do tabaco é pior do que qualquer outra. Vou dar um exemplo. Nos últimos 30 anos, o HIV matou, em média, vinte milhões de pessoas no mundo e o bacilo da tuberculose, 60 milhões, enquanto o tabaco matou 150 milhões, ou seja, cinco milhões de pessoas no mundo morrem por ano por causa do tabaco. O mais triste é que 80% da mortalidade ocorrem no mundo pobre.
Em números redondos, atualmente existem no mundo um bilhão e trezentos milhões de fumantes, 80% dos quais concentrados nas áreas onde ainda não foram dominadas as doenças transmissíveis por bactérias e vírus e as doenças carenciais por desnutrição. Somem-se a elas os problemas de saúde pública e as mais de 50 doenças relacionadas com o tabaco e teremos traçado um panorama trágico.
COMPONENTES DO TABACO
Drauzio – Na verdade, são muitas as substâncias tóxicas contidas no tabaco.
José Rosemberg – Sabe-se, hoje, que o tabaco possui mais de sete mil substâncias tóxicas diferentes. O público leigo e muitos médicos pensam que o fumo contém apenas nicotina e alcatrão. Nicotina é a droga que leva à dependência (se não fosse ela, ninguém fumava) e tem a peculiaridade de não ser comprada pura como a cocaína e a heroína. Ninguém compra um grama de nicotina no bar; compra um maço de cigarros, que carreiam consigo sete mil substâncias tóxicas, 4.720 das quais classificadas nas quatorze famílias químicas. Quando o cara dá aquela tragada que lhe parece tão gostosa, a fumaça que penetra até no último de seus alvéolos está carregando pelo menos 2.500 substâncias tóxicas.
Drauzio – Essa fumaça está em que temperatura, professor?
José Rosemberg – Essa é uma pergunta importante. Muitas dessas substâncias não estão no tabaco. São compostas e decompostas na boca do fumante. A temperatura, que pode variar entre 900 e 1.200 graus conforme a força da tragada, é responsável pela formação de muitas substâncias cancerígenas, por exemplo. A nicotina em si não é cancerígena, mas provoca câncer por vários mecanismos.
Drauzio – O senhor poderia mencionar as principais doenças causadas pelo tabaco?
José Rosemberg – Hoje, não há um livro de medicina que deixe de mencionar os problemas de saúde causados pelo tabaco. Em primeiro lugar, vêm as doenças cardiorrespiratórias. Se, no geral, 33% dos infartos fulminantes são provocados pelo tabaco, nos indivíduos entre 45 e 55 anos, esse número sobe para 50%.
A partir dos 50 anos de idade, 25% dos derrames cerebrais têm como causa o tabaco e não há quem não saiba que o derrame cerebral pode levar à morte ou à paralisia. Além disso, 85% dos casos de bronquite crônica, enfisema, uma enfermidade que destrói o pulmão e não tem cura, se devem ao hábito de fumar. E não é só: essas doenças deixam o pulmão mais vulnerável às infecções viróticas e bacterianas, como gripe, AIDS, tuberculose, etc.
Por causa da diminuição da capacidade imunológica dos macrófagos (células que garantem a imunidade) que o tabaco provoca, 90% dos cânceres de pulmão são causados pelo tabaco e os 10% de não fumantes que contraem a doença são fumantes passivos. E tem mais: todos os outros tipos de câncer têm a incidência aumentada entre 30% e 50% nos fumantes. Portanto, casos de câncer de boca, laringe, faringe, esôfago, estômago, pâncreas, fígado, rins, bexiga, leucemia mieloide e, nas mulheres, câncer de colo do útero e de mama, estão aumentando nas pessoas que fumam.
Ninguém mais discute que o tabaco é mortal. Na verdade, ele é o único produto que mata quando consumido como manda a propaganda.
PESQUISA NA INGLATERRA
Drauzio – Não resta mais dúvida de que o fumante vive menos.
José Rosemberg – Que o cigarro encurta a vida, não há mais dúvida. Estatísticas no mundo inteiro atestam esse fato. A propósito, gostaria de citar um estudo realizado, em 1951, com 34.439 ingleses. Eles responderam um questionário de mais de trezentas perguntas sobre como viviam, que medicamentos tomavam, se eram portadores de doenças hereditárias, onde moravam, se eram fumantes ou não, se acendiam o cigarro com fósforos ou com isqueiro, etc. Como na Inglaterra, quando morre um médico, cópia do atestado de óbito vai para o Conselho Britânico de Pesquisas, foi possível verificar, depois de 40 anos de acompanhamento, que os médicos ingleses fumantes morreram mais do que os não fumantes por 33 diferentes doenças.
Outro dado obtido foi que 80% dos médicos que nunca fumaram chegaram vivos aos 70 anos. Entre os fumantes chegaram aos 70 anos 70% dos que fumavam 15 cigarros por dia; 65% dos que fumavam um maço de cigarros e 50% dos que fumavam dois maços. Recentemente, no British Medical Journal, saiu o resultado dessa pesquisa depois de 50 anos de acompanhamento e verificou-se uma diferença no índice de mortalidade dos médicos ingleses que começaram a fumar no começo do século comparados com os que começaram a fumar depois dos anos de 1930. A conclusão foi que hoje se morre três vezes mais por causa do cigarro, porque se fuma muito mais do que se fumava no começo do século.
O impressionante é que 1/3 da mortalidade geral é provocada pelo tabaco e ocorre entre os 34 e os 69 anos, idade em que o homem é mais necessário e economicamente produtivo, e que nessa faixa de idade morre um a cada dois que começaram a fumar na adolescência.
Drauzio – O que acontecerá se esse padrão de consumo não mudar?
José Rosemberg – Hoje, morrem por ano cinco milhões de pessoas por causa do tabaco. Se o padrão de consumo não se reverter, em 2030, morrerão dez milhões por ano, dos quais sete milhões no mundo pobre e três milhões no mundo rico.
Vale a pena discutir essa inversão. A epidemia está se deslocando do mundo rico para o mundo pobre, para a África, Ásia e América Latina, por algumas razões que vou enumerar.
Como as pessoas do mundo rico começaram a fumar antes, já existem campanhas e leis muito mais severas contra o uso do tabaco. Como consequência, as companhias tabaqueiras internacionais estão dirigindo seus esforços para os países em desenvolvimento. Por isso, enquanto o consumo cai 1,7% ao ano nos países ricos, aumenta 2,45% nos pobres. Isso quer dizer que cem milhões de pessoas começam a fumar por ano: oitenta milhões no mundo pobre e vinte milhões no mundo rico.
Se fumar fosse dar uma tragada e cair morto, ninguém fumava. O cigarro leva algum tempo para minar o organismo. Age na surdina. Daqui a dez ou vinte anos, portanto, muito mais gente vai morrer no mundo pobre por causa do tabaco.
DOENÇA PEDIÁTRICA
Drauzio – Outro problema é que as pessoas estão começando a fumar cada vez mais cedo.
José Rosemberg – Atualmente se considera a epidemia tabágica uma doença pediátrica, porque 99% dos fumantes começam a fumar na adolescência, entre os 10, 12 anos e os 18 anos, quando os centros nervosos ainda não estão totalmente desenvolvidos. Excepcionalmente, um indivíduo começa a fumar aos 20, 25 anos.
A nicotina chega ao cérebro de 7 a 12 segundos depois da tragada. Lá existem vários centros nervosos que a reconhecem e promovem uma chuva de hormônios psicoativos que levam à dependência. O principal deles é a dopamina. Como no adolescente esses centros ainda não estão maduros, a defesa é muito menor e ele se torna dependente mais depressa. Aos 19 anos, 99% dos fumantes são escravos do tabaco até a morte.
FUTURO TRÁGICO
Drauzio – Existe uma projeção de como evoluirá a epidemia do tabaco?
José Rosemberg – Existem no mundo de dois bilhões e meio a três bilhões de pessoas entre zero e trinta anos. Em 2030, elas terão de 35 a 69 anos. Se nada for feito para reduzir o consumo de tabaco, ele será responsável pela morte de 500 milhões de pessoas. Por isso, as instituições médicas e de saúde pública do mundo inteiro estão prevendo um futuro trágico para a epidemia do tabaco.
A pergunta é por que não se proíbe fumar e vender tabaco. Porque é impossível, uma vez que existem no mundo mais de um bilhão de indivíduos nicotino-dependentes. Como fazer essa gente toda parar de fumar?
Há 500 anos, o tabaco vem sendo apresentado como sinônimo de estilo de vida e se fuma muito, mas faz só 50 anos que se sabe que ele mata. Na verdade, o fumante é vítima dessa epidemia. Não podemos estigmatizá-lo.
CONVENÇÃO-QUADRO SOBRE O TABAGISMO
Drauzio – O que o senhor acha que deve ser feito para reverter esse quadro?
José Rosemberg – A saída é um programa educacional em âmbito nacional que leve a mensagem e uma campanha mundial contra o tabagismo. Na Organização Mundial de Saúde, 192 países e 200 ONGS, entre elas a que presido, assinaram um convênio que se chama Convenção-Quadro sobre o Controle do Tabaco que resultou no primeiro tratado de saúde pública mundial de prevenção, o primeiro sobre tabagismo. Se 40 países não fizerem a ratificação desse documento, ele não poderá ser transformado em lei internacional para proteger a população do mundo contra os efeitos nocivos do tabaco. Entre as medidas que defende, estão a proibição da propaganda de cigarro, do patrocínio de eventos culturais e esportivos pela indústria do fumo, de fumar nos lugares públicos e a divulgação de imagens e frases de advertência nos maços de cigarro.
Pode-se proibir fumar nos locais de trabalho ou diversão, mas não se pode proibir que o indivíduo fume em casa. Por isso, a saída é elaborar um programa nacional de educação. Nenhuma lei é aplicável se não tiver base educacional e nenhum programa educacional funciona, se não contar com o amparo da lei. Legislação e educação constituem um binômio interdependente.
Nossa esperança é que até 2050 tenhamos conseguido conscientizar a sociedade de que fumar é um ato antissocial. Faz mal a quem fuma e a quem convive com o fumante.

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DISLEXIA.


      ESCOLA FV.FABIO VICENTINI TREINAMENTO PARA HABILITADOS.

Dislexia.


Dislexia é um transtorno genético e hereditário da linguagem, de origem neurobiológica, que se caracteriza pela dificuldade de decodificar o estímulo escrito ou o símbolo gráfico. A dislexia compromete a capacidade de aprender a ler e escrever com correção e fluência e de compreender um texto. Em diferentes graus, os portadores desse defeito congênito não conseguem estabelecer a memória fonêmica, isto é, associar os fonemas às letras.
De acordo com a Associação Brasileira de Dislexia, o transtorno acomete de 0,5% a 17% da população mundial, pode manifestar-se em pessoas com inteligência normal ou mesmo superior e persistir na vida adulta.
A causa do distúrbio é uma alteração cromossômica hereditária, o que explica a ocorrência em pessoas da mesma família. Pesquisas recentes mostram que a dislexia pode estar relacionada com a produção excessiva de testosterona pela mãe durante a gestação da criança.

Sintomas.
 
Os sintomas variam de acordo com os diferentes graus de gravidade do distúrbio e tornam-se mais evidentes durante a fase da alfabetização. Entre os mais comuns encontram-se as seguintes dificuldades: 1) para ler, escrever e soletrar; 2) de entendimento do texto escrito; 3) para de identificar fonemas, associá-los às letras e reconhecer rimas e aliterações; 4) para decorar a tabuada, reconhecer símbolos e conceitos matemáticos (discalculia); 5) ortográficas: troca de letras, inversão, omissão ou acréscimo de letras e sílabas (disgrafia); 6) de organização temporal e espacial e coordenação motora.

Diagnóstico.

O diagnóstico é feito por exclusão, em geral por equipe multidisciplinar (médico, psicólogo, psicopedagogo, fonoaudiólogo, neurologista). Antes de afirmar que uma pessoa é disléxica, é preciso descartar a ocorrência de deficiências visuais e auditivas, déficit de atenção, escolarização inadequada, problemas emocionais, psicológicos e socioeconômicos que possam interferir na aprendizagem.
É de extrema importância estabelecer o diagnóstico precoce para evitar que sejam atribuídos aos portadores do transtorno rótulos depreciativos, com reflexos negativos sobre sua auto-estima e projeto de vida.
 
Tratamento.

Ainda não se conhece a cura para a dislexia. O tratamento exige a participação de especialistas em várias áreas (pedagogia, fonoaudiologia, psicologia, etc.) para ajudar o portador de dislexia a superar, na medida do possível, o comprometimento no mecanismo da leitura, da expressão escrita ou da matemática.

Recomendações.

* Algumas dificuldades que as crianças podem apresentar durante a alfabetização só ocorrem porque são pequenas e imaturas e ainda não estão prontas para iniciar o processo de leitura e escrita. Se as dificuldades persistirem, o ideal é encaminhar a criança para avaliação por profissionais capacitados;
* O diagnóstico de dislexia não significa que a criança seja menos inteligente; significa apenas que é portadora de um distúrbio que pode ser corrigido ou atenuado;
* O tratamento da dislexia pressupõe um processo longo que demanda persistência;
* Portadores de dislexia devem dar preferência a escolas preparadas para atender suas necessidades específicas;
* Saber que a pessoa é portadora de dislexia e as características do distúrbio é o melhor caminho para evitar prejuízos no desempenho escolar e social e os rótulos depreciativos que levam à baixa-estima.

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